Queda

Corria por entre campos mórbidos, apoiando-se em árvores retorcidas e matando a terra a cada novo passo. Não sabia o que procurava, não sabia por que corria, mas estava disposto a degolar qualquer um que tentasse impedir.

– Por que corre?

– Por que vivo?

– Vive?

Tão breve cansou, o chão se abriu e as árvores incendiaram. O que restara não ia além do que esteva lá no começo. Não se lembrava bem, mas tinha a certeza de que o vazio que sentia nunca fora totalmente saciado. Estranhamente, o céu desaparecia em flashes e retornava cada vez menos azul. A realidade nunca havia sido tão nebulosa.

Sentou-se por um momento. Segurou a terra, respirou a fumaça e fechou os olhos. Não havia por que acreditar que estava vivo. Deitou e esperou a morte vir buscá-lo.

– O que esperava acontecer?

– Acreditava que um dia a felicidade me embriagaria e eu entenderia o segredo do mundo daqueles que vivem. Olhe em volta. Não há felicidade, não há cheiro, não há sequer cor.

– O segredo do mundo dos que vivem está muito longe daqui. Quando passamos a viver nos sonhos, morremos a cada distração. Se quiser viver não se distraia, não sonhe. Esteja sóbrio para enfrentar todas as outras pessoas que fazem o mesmo. A felicidade que procura está no fim deste caminho, mas só será sua durante o breve momento em que estiver lá.

Abriu os olhos, o azul do céu machucava seus olhos, a grama distante e verde lhe incomodava, mas havia algo de puro em sentir-se flutuar por entre as nuvens.

– Saiba que deste momento em diante nunca mais poderá fechar os olhos. Viverá nesta beleza inegável, e se um dia se distrair perderá tudo o que tem. Se um dia fechar os olhos verá apenas o caminho que seguiu até aqui, e nenhum outro. Não sonhe. Não se embriague com isto.

– O que há além?

– Sonhos.

– E se um dia quiser sonhá-los?

– Basta fechar os olhos. Há um mundo vasto e podre além desta luz macia, pronto para te sufocar e te fazer sofrer por escolhê-lo. A trilha da vida sempre retorna ao seu começo. Este mundo, porém, tem muitos caminhos que te levarão para o fim, depois de levá-lo a si mesmo. Você um dia haverá de escolher.

Olhos abertos, via-se caindo. Não poderia se salvar. Chegou ao chão tão subitamente que foi arremessado de volta alguns centimetros. Ou somente seus braços. Não saberia dizer. Olhou em volta, a lua iluminava seu quarto de madeira. Sua cama estava desarrumada, e não haveria de ser diferente.
Fechou os olhos. Queria morrer novamente.

Velocidade Constante

Há algo de bonito em destruir.
Vivemos e corremos sobre toda a podridão do mundo, e não sabemos o porquê. Somos um abismo, e nele temos medo de cair. Vejo tanta gente correndo, gente de potencial. Há tantos litros de cérebro, tantos quilos de carne, ossos e órgãos aqui. Vejo tanta merda que sinto vontade de destruir. Quem sabe assim eu possa recriar, reviver, retomar, resistir, refletir, repetir, relatar, re… redestruir?
Acorde, querido.
Há algo no ar me sufocando. Os sons e as sombras da noite têm me incomodado há algum tempo. Não durmo bem, e isso me destrói. Sinto meu corpo apodrecer. Onde está a maldita saúde que a propaganda me vende todas as manhãs?
Acorde, querido.
Luzes, luzes. Oh, as luzes. Sinto dores, não me mexo. Aquela vadia me traiu! Luzes. Um beep. Que vadia? Números e mais números. Oh, luzes! Outro beep. Luzes… O sol? Beep… O alarme? Hora de acordar!
Bom dia, querido.
Há algo de bonito em criar. Mesmo estando o quarto afogado em poeira, as roupas jogadas pelo chão, restos de comida espalhados e o sol se espremendo por entre as frestas da janela, há algo de bonito em criar um café da manhã. Junto uma fatia de pão, algum queijo e o leite vencido, e tenho um pedaço de vida em minhas mãos.
Sim, vida! O pão não se meche, o queijo não se reproduz e o leite não respira – não deveria, aliás -, mas todos se unem à minha massa para mantê-la viva.
Aliás, alguma vez já perdeu a habilidade de enxergar mentes? O mundo perde o sentido: pessoas não passam de máquinas que andam, comem e se desesperam; o céu se desprende, rasgando como papel de fundo; o ar queima por entre suas vias nasais; suas mãos parecem pertencer a algum outro que você nunca conhecerá; você entende o que é a massa humana.
Vejam todos, vejam todos! Há um covarde na sala de estar, sentado em almofadas de algodão bebendo leite e assistindo a obras-primas de alienação. Há um covarde em suas vidas, agora que lêem este escrito. Nunca esquecerão do covarde. Nunca esquecerão de quem são.
Troco a camiseta, calço os sapatos. Sem banhos hoje, a roupa continuada da noite passada me acompanhará por mais uma viagem a esse submundo doentio que chamam de sociedade moderna. Há muito blá-blá-blá pra lá e rrrrrr pra cá e beep pra lá e vrum-vrum pra cá… Há muito barulho lá fora. E todas essas pessoas correndo, para onde correm? Do que correm? Vejam só essas ovelhas, não sabem do que sua vida lhes adianta. Nunca conhecerão a verdade.
Andando pelas ruas nesta quarta-feira de manhã, com o sol entrecortando nuvens e aquecendo moléculas de vapor à minha volta, pessoas correm, carros correm, letreiros e ondas eletromagnéticas correm. Tudo corre. E eu ando. Só haverá gente cega neste mundo?
O compasso de meus pés não falha sequer por um segundo. Desviando desses seres abomináveis eu ando por entre um mar de massa humana, litros e litros de cérebro parecem escorrer ao meu redor. Eles são inúteis, repito. Nada além de uma massa cinzenta chacoalhando dentro de suas cabeças. Um passo, outro passo, mais um passo, uma bicicleta passa. Outro passo, e sem falha um último, antes que meu pé se enrosque em algo.
Engraçado perceber que apesar de toda a repulsa à massa humana, me torno fácil e ridiculamente humano ao tropeçar. Não há na história sequer um rei que manteve a unidade de suas tropas após uma falha. Não há de ser diferente com os artistas, reis de seu próprio mundo. Uma falha e precisamos encontrar outra forma de ver o mundo. Uma falha e tudo o que acreditamos se torna lixo.
Enquanto caio, mudo. Olho para os lados, percebo o rosto risonho da criança junto à mãe – maldita criaturinha sádica -, as pessoas que passam, a figura sentada na calçada. Espere. Uma figura sentada na calçada? Tarde demais, caí. E mudei.
Alguém sentado ao meu lado me dizia, sem palavras ou gestos, que também mudara. Apontava com os olhos para um buraco logo atrás, e seu cotovelo ralado me dizia que estava ali há não mais que cinco minutos. Um buraco, e nós mudamos. Vejamos quantos mais deverão cair para mudar. Por mais duas horas ninguém caiu. Todos com suas velocidades e caras fechadas eram especialmente treinados para evitar qualquer buraco. Ninguém quer mudar.
Passam as ovelhas, e nada muda. E mesmo caindo em buracos ou me consumindo em sonhos de guerra, não entendo o porquê da velocidade. Talvez o homem queira ser cada vez mais rápido para, quem sabe um dia, superar o mundo e se esconder em sua ciência e fé ao entender tudo o que pode acontecer em uma fração de segundos.
Segundos. São necessários apenas cento e quarenta e dois destes para se fazer um filho; vinte e um para se começar uma guerra; três para se matar alguém; meio para incendiar uma cidade inteira com Napalm. O homem quer ser mais rápido. Ele quer fugir.
“Antes que me falhe a vontade, o que faz aqui?” – disse o rapaz, há horas mudo.
“Acredito em mudanças. Minhas mudanças.”
“E que diferença elas fazem para o mundo?”
“Mundo, mundo, mundo. Nunca se teve tanto medo de um palco.”
“Palco?”
“Sim. Somos atores perambulando por um palco mundial, sob papéis de pessoas que não conhecemos e talvez nunca conheceremos.”
“Palco. Definição interessante.”
Uma ambulância passa correndo. Uma mulher grita com o marido. Outra bicicleta passa. Mais uma criança chora. Nada mudou, nada mudará. Todos continuarão com seus papéis até o dia em que a morte lhes vier contar quem realmente são, conduzi-los a si próprios.
Há, realmente, algo de bonito em destruir: mudar.

Cozinhando

Descongelar carne é uma desgraça pela qual ninguém no mundo deveria passar.
É uma sensação agonizante, quase de impotência. Sentir-se desolado e carente ao ver aquele lindo pedaço vermelhe permanecer parado por longos minutos.
Sentir o cheiro do bacon suavemente entrando pela sua narina esquerda, enquanto o máximo que você pode fazer é continuar observando aquela fina camada de gelo aos poucos se liquefazendo.
Enquanto escrevia isso, a cebola queimou.

Antologia do meu Mundo – Prólogo e Capítulo I

Boa tarde, senhoras e senhores.

Estou escrevendo um livro, e não sei definir seu estilo, sobre o que é ou muito menos para que serve. Se alguém descobrir, por favor me fale. No momento estou escrevendo o capítulo IV, mas resolvi divulgar o I pra saber a opnião alheia. Apenas para comentar, não tenho pretensões econômicas com tal, se tratando apenas de uma forma de reunir tudo aquilo que vivo e que me incomoda. Não faço idéia se o livro será impresso em grande escala e muito menos comercializado, escrevo por paixão, somente.

Prólogo

Fazemos parte de uma besta de metal de 3 metros de altura e nos movemos sujeitos às leis da física em direção ao nunca. O caos e a dúvida cruelmente abafados pelas pesadas gotas de chuva no vidro sempre me fazem pensar, duvidar da capacidade do mun­do em mudar. Em minhas mãos a literatura clandestina, emude­cida pela enxurrada de desespero, combate fervorosamente o reló­gio que jaz no pulso direito e acompanha o compasso da sinfonia de todos os sons, atravessando-me os sentidos, sem origem ou des­tino, apenas para acompanhar a infinita sinestesia desse momento. Sinto que posso ouvir as cores das árvores e sentir o cheiro das palavras.

A besta corre por entre as vias de concreto, rasgando o vento e o além com seu formato aerodinâmico, somos produto da era da velocidade. Ah, a cruel era da velocidade, faz de animais os menos privilegiados, bestas de capacidades limitadas, prontos para degolar e subjugar o primeiro que vos desafiar por uma ideologia que demon­stre o lado podre da natureza que aceita como própria e imutável. Prontos para rasgar não só o vento com suas navalhas, mas toda a podridão humana na busca da essência do que é ser humano.

As reluzentes paisagens ao nosso redor refletem em nos­sa retina, o brilho no olhar nos lembra de quem somos: homens comuns, heróis silenciosos. Trabalhadores, estudantes e falas­trões, recriando o mundo à nossa maneira dia-a-dia, sem ao menos saber se temos este direito. Ao som de Beethoven, os violinos acompanham a sublime viagem ao sub­mundo dos vorazes animais que nos acompanham. O mal ne­cessário para que a justiça seja feita, eles correm ao nosso lado.

Há muito uma voz em minha cabeça me faz escrever sobre tudo o que ela me conta. Não sei seu nome ou ao menos o que significa, mas me agrada o fato de estar ao meu lado. Não sou um escritor, apenas um observador. As obras que aqui estão não são de minha autoria, quem as criou foi o mundo, eu apenas as retratei.

Capítulo I : O café

São sete horas da manhã de uma sexta-feira, fecho a porta e deixo as confortáveis, acolhedoras colchas para trás. Saio e enfrento o frio e os tigres do capital. Em meu carro de classe média, ouvindo ao rádio mal sintonizado, me dirijo ao caos que logo cedo se forma no maior centro urbano do país. O clima me convida para um café.

Vinte minutos até conseguir estacionar meu carro, um local apropriado entre o escritório e a cafeteria. Após alguns anos de trabalho com arquitetura, me pergunto se a razão entre a distância do escritório ao carro e deste para a cafeteria realmente equivale à proporção áurea ou se o trabalho começa a me tomar a razão.

Bancos de madeira perfeitamente polidos e simétricos espalhados em um ambiente manipulado para fazer qualquer um fugir da realidade, mesmo mergulhado no assombroso caos da cidade grande. A caneta que carrego no bolso da camisa insiste em passar para o guardanapo toda a angústia que se pode encontrar em uma mente nômade à procura de um oásis de sanidade meio à loucura incontrolável do mundo ultramoderno. Oásis de sanidade. Expressão engraçada.

Uma xícara de café expresso com chantilly, um sachê de açúcar e um pão de queijo recém saído do forno. O aroma me entorpece. Procuro ignorar as conversas, ainda é muito cedo para perder minha esperança no mundo hoje. A televisão me chama a atenção com seu apelo jornalístico às pequenas notícias, que na metálica voz do âncora vêm trazer o desconforto para tão bela manhã.

– “Sete e trinta e quatro da manhã, horário de Brasília, Bom Dia. Um garoto desaparecido foi encontrado em um quarto escuro da casa de seu vizinho, espalhando tinta pelas paredes com as mãos nuas. O garoto foi encaminhado para acompanhamento psicológico e os pais enviados ao conselho tutelar. Os vizinhos afirmam que não sabiam de nada.”

Logo em seguida uma enxurrada de entrevistas sobre educação infantil, reportagens sobre segurança familiar e propaganda de comida para cachorro. – Acharia interessante contar sobre a quantidade de famílias que adotaram um cachorro na semana que se passou, mas isso importaria mais se fosse inesperado. – Como se tudo o que eu quisesse hoje fosse perder a esperança no mundo novamente, aquela pequena caixa de plástico me traz a voz da entrevistada, que diz:

– “É uma irresponsabilidade que crianças façam coisas deste tipo! Elas devem ser punidas!”

Irrompendo por entre os comentários que tomavam o salão, explosões rugiam ao longe: fogos de artifício reluzindo em uma incrivelmente bela combinação de carbono, enxofre e nitrogênio. Os sais voavam em diferentes cores, ofuscados pela luz do dia. Uma criança grita e pula de felicidade ao estridente som que fere a paciência dos mais adultos. Os gritos suprimem meus pensamentos, e antes que todos pudessem voltar à própria consciência ou que a mãe conseguisse sufocar a criança por alguns segundos até que ela parasse, seus gritos se fazem uníssonos com algum outro, assombroso, que surge como um tiro através das janelas de vidro e ressoa nas madeiras perfeitamente polidas.

Todos para fora, há um desastre e devemos saciar nossa vontade pelo humano observando a desgraça alheia.

Em um solavanco, a porta se abre e a vontade de sangue de todos os presentes – ajuizados, racionais, banhados e bem instruídos – se revela em uma anarquia de pés e mãos que se estapeiam para contemplar a tragédia. Curioso reparar no jovem que, de cabeça baixa, fugiu sem pagar a conta.

Senhoras e senhores sejam bem-vindos a esta tragédia contemporânea que chamamos de mundo moderno. A peça de hoje não tem prelúdio, enredo ou fecho de ouro, é apenas uma nota de rodapé do nosso autor que infelizmente não pôde vir contemplar o resultado de seu trabalho nesta manhã.

O show começa.

Há um ponto de ônibus, sangue e um corpo. Uma senhora que chora e uma criança que grita. Há também uma personagem vista única e particularmente pela criança, vestida de preto com um capuz, que aos mais adultos se apresentava no projétil aerodinâmico de chumbo, antimônio, cobre e zinco alojado na cabeça do defunto – que agora escorregava pelo banco do ponto.

– “Olá, pobre criança! A dona morte está de volta! Devo lhe dizer que sinto muito, minha querida, mas estou atrasada. Há outras chamadas no momento e não poderei te contar a verdade. Em alguns anos eu volto, talvez em forma de câncer ou caso você seja estuprada. Aí então você poderá me conhecer a fundo.”

Paramédicos, policiais, repórteres, curiosos e animais. A vida daquela criança nunca mais será a mesma, e quando ela tentar criar o próprio mundo, talvez com a tinta que sobrou da reforma em um quarto na casa dos vizinhos, será cruelmente repreendida por ingenuamente buscar a verdade.

Pobre criança.

Bem, creio não ter me apresentado. Esqueci meu nome há algum tempo, só me recordo dele para receber o pagamento dos clientes. Tenho uma vida comum, uma esposa, sem filhos, sou arquiteto e tenho um gosto obsessivo por arte. Há algum tempo meu psicólogo me recomendou escrever as anedotas que me assombram, pois estava sem conseguir dormir ou me concentrar. Gritar na escuridão vazia para me libertar, parece interessante.

Eu realmente gostaria de uma grande história sobre a qual escrever, mas em sua falta aposto diariamente nas pequenas, dissonantes revoluções individuais do mundo, escrevendo as já mencionadas anedotas de minha paranóia para ninguém além de mim mesmo.

Acredito que deva contar-lhes um pouco sobre minha vida – aproveitando a interrupção – e o porquê de eu estar neste café às sete e cinqüenta da manhã de uma sexta-feira comendo este pão de queijo.

Tive uma infância perturbada, sofrendo em todas as escolas pelas quais passei do que hoje se chama de bullying. Sempre tive dificuldade com mulheres e amigos, não sou a pessoa mais sociável do mundo e acredito que os cursos de retórica, empreendedorismo e leitura dinâmica não ajudaram muito. Em um café como esse em que estou, há alguns anos conheci minha atual esposa e ao casarmos partimos em lua de mel ao sul do país, procurando por neve em solo tupiniquim. Tenho um escritório de arquitetura e consigo assegurar um padrão médio de vida para nós mês após mês. Não teria do que reclamar se não fosse essa constante angústia que me leva a escrever em guardanapos, essa inquieta voz dentro de minha cabeça.

Explicá-la é, de certa forma, complicado. Você passa algum tempo relatando para si mesmo sua visão do mundo exterior e quando se dá conta, ela adquire vida própria. Com o tempo e sua capacidade completamente epistêmica de análise essa visão começa a predizer fatos cada vez mais complexos e te faz acreditar que talvez você tenha a razão sobre todas as coisas. Essa visão se torna o que se chamamos de paranóia.

O que minha paranóia tem a ver com o fato de eu estar sentado neste banco analisando sua perfeita simetria enquanto tomo os últimos goles do melhor café da cidade? Levaria algum tempo pra explicar. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, ao criar sua teoria do aparelho psíquico humano relacionou os níveis de personalidade em Ego, Super Ego e Id. O problema é quando há um quarto elemento, cuja única função é causar a discórdia entre os outros três. Minha mulher não me suporta mais, minha família me evita e os amigos sumiram do mapa. Estou fechando a conta agora pois estou sozinho neste mundo – se não estivesse, provavelmente estaria pedindo outro café.

Neste momento minha mulher deve estar separando minhas coisas e ligando para o advogado para acertar os papéis do divórcio. A paranóia de que tanto falo é um fardo que carrego em troca de proteção contra o mundo, em forma de inúmeras previsões sobre o futuro próximo. Quem sabe se aquele simpático homem andando de bicicleta não pode sacar uma arma e em um ato de descontrole acabar por me matar? Ou se aquelas pessoas rindo não o fazem de mim? Corra.

Viver neste mundo ultramoderno é cada vez mais complexo. A globalização veio como um soco no estômago de quem dizia querer participar de algo maior. Comumente, pessoas gostam de falar que “o feitiço virou contra o feiticeiro”, mas não tenho certeza se todo o complexo sistema social dos tempos de hoje pode ser resumido em um ditado popular. Se você preza por individualidade, originalidade, espaço, esqueça. Há sempre alguém que descobrirá do que você gosta e apresentará isso ao mundo como uma nova forma de cultura.

Boa tarde, soldados. A equipe tática está com alguns problemas e não pôde criar um discurso inspirador, eles estão trabalhando para que eu não vos conte que estão aqui para comprar comida de cachorro. Todos atentos, olhos e ouvidos voltados para mim, soltem seus cafés. Vejam agora, abobados, as imagens em alta definição da vida liberta e feliz de um cachorro, que precisa da comida especial que estamos a te oferecer. Este pode ser o seu cachorro, ou o cachorro da sua filha, ou o cachorro que você irá adotar semana que vem, compre nossa comida de cachorro.

Posso perceber o exato momento em que as palavras saindo de dentro da minha cabeça misturam-se com o pequeno alto-falante da caixa de plástico – que curiosamente ainda prende os espectadores para que seus cafés esfriem. Muito bem, perdi minhas esperanças no mundo hoje. Novamente.

O carro estava lá, onde eu o deixei. Hoje eu acordei mal, penso. Estou atrasado, penso em seguida. No caminho para o trabalho me pergunto onde estarão as grandes aventuras que procuro para minhas histórias e onde estará o brilho da vida que todos aqueles comerciais prometem, que as igrejas pregam e que os governos reservam para as camadas mais altas da sociedade. Pergunto-me onde está o maldito fôlego, a maldita inspiração que todos aqueles artistas têm para compor a incrível massa de cultura que me completa.

Talvez eu precise de comida de cachorro.

Sonetos

Epitáfio da ovelha

Algum dia tu viste a lua?
Por entre um sorriso falso
ou um pecado tão fantástico?
Ou dentre a ignorância tua?

Já viste a verdade nua?
Alcançaste o fim do espaço?
Provou-te vida a ruptura
deste sufocante laço?

Acorde, queria ovelha,
há aqueles que muito te amam
e esperam tua carne à ceia.

Tua alma evapora da veia.
Tua carne, pessoas mutilam
e bactérias fagocitam.

 

Soneto à vida

Oh! Vejam quão bela é a vida!
Vida fétida e barata,
incompreensível e ingrata,
ainda cara à alma maldita.

De tua líbido incontida,
incansavelmente gasta,
que arranha, geme e grita,
e ainda aos pobres é casta.

Oh, quão bela esta vadia!
Cara, e de caro perfume,
gentil à iconoclastia.

Um salve à tua anistia!
E que morra então de fome
quem de ti prova e não geme.

 

 

Atestado de Óbito

Oh, doce manhã. Que os pássaros me venham preencher a aurora com a mais bela de suas canções, e que o vento traga a chuva para lavar minha alma. Querida manhã, tão fria e solitária, faz-se doce por sua própria melancolia, agora que abriga as almas sombrias daqueles que se familiarizam com teu estupor e nostalgia. A leve brisa se aproxima suavemente, e em movimentos de bailarina vem trazer um delicioso cheiro de amêndoas estranhamente confortável. Um banco de mármore dentro do corredor de árvores, não demora até que eu perceba a falta de qualquer outra alma viva pra compartilhar desse momento em que bela dama vem acariciar-me, acompanhada da morte.

Meus cabelos balançam aos gritos desesperados de corpos se retorcendo a dezenas de metros de distância, e por algum tempo as amêndoas são o suficiente pra me manter aqui em meu estado de devaneio, em que a razão parece faltar particularmente aos meus dedos, que pairam no ar e reproduzem as mais belas composições de meu mundo. Elas não têm nome, são apenas a representação mais perfeita do homem, que me invade como uma enxurrada, em milhares de compositores agora formando uma sinfonia que só eu terei o prazer de um dia ouvir, a sinfonia de todos os sons. A música, o balançar das árvores, o sol escondido por detrás das nuvens de chuva que se aproximam, todos conspiram pra que esse momento dure o quanto minha respiração agüentar.

Ao som da sinfonia de todos os sons, agora passando a seu último movimento tão esperado por todos em meu mundo, revejo os postulados sobre loucura e terapia, tão vazios, apenas uma tentativa de adiantar o inevitável devaneio final. Posso ouvir claramente os violinos, violoncelos, o coral, as flautas e todo o resto me carregarem para uma viagem caótica ao interior de minha própria existência. Eis que me sinto cair, infinitamente, enquanto fogem-me as lembranças e razões por entre os dedos, esvaindo-me na escuridão.

O estupor me controla, e sinto o sublime desfecho da sinfonia ser cravado em minha alma, que se mistura à dama dos ventos na leve dança rumo ao além, para nunca mais ser admirada por nenhum outro homem no mundo dos vivos. As amêndoas poderão trazer-me outras almas, mas nunca poderão levar-me de volta para contar ao mundo a verdade sobre o devaneio final. Dessa forma a sinfonia de todos os sons é tomada dos homens, para nunca mais ser ouvida por ninguém além de mim. Causa mortis: amêndoas.

Onda

<comece a ler ao 1:20. não precisa ter pressa.>

Enfim, deitado, ouço a voz de uma enxurrada de ondas eletromagnéticas que me desejam bons sonhos através do celular. E onde está você, se não aqui? As almofadas são a minha dama desta noite, e jogado entre elas, adormeço. Logo, posso sentir o calor que me falta em um leve abraço, sinto seus lábios se aproximarem de meu ouvido e falarem com a voz mais doce que já ouvi:
– “Sozinho novamente, meu querido?”
– “Não mais.”
Mais um dia na loucuralândia. O sol mal dá as caras e já posso ouvir a loucura desenfreada dos homens se projetar nas buzinas lá fora, e não demora até que os telefones tocando e o terno me sufoquem. Escritório de Advocacia, Bom Dia, quem fala? E mais um homicídio vem atormentar meu caos perfeitamente estável. Como um tiro, uma mensagem chega ao meu celular e ao som de Stravinsky, respondo palavras carinhosas de bom dia.
Senhor, você tem uma entrevista com os representantes do caso Corleone hoje às quatorze horas. Não me incomoda mais, anos trabalhando com gente inocente me fizeram esquecer de terror que é uma chacina familiar no domingo de páscoa. Obrigado, pode me trazer um café? O sorriso singelo responde e a porta se fecha. Na minha mesa, uma grande tela com uma foto dela, recebida por e-mail. O dia hoje está bem cheio, você poderia pedir comida? O de sempre, para dois. O mesmo sorriso, com pinceladas da mais pura e delicada vergonha, se prontifica a atender o meu pedido imediatamente.
– “Eu não entendo, vocês se amam tanto, por que nunca se encontraram?”
– “Não te convidei para almoçar para falar sobre minha vida, mas eu gostei de você, então serei cavalheiro em te contar. Eu a conheci há alguns meses por acaso na internet, e ela preza por mim me mandando mensagens e sentindo saudades. Não sei se algum dia vou encontrá-la, mas gosto do que ela sente, portanto não a ignoro.”
– “E o senhor se relaciona com outras mulheres?”
Convite ou não, o interfone tocou. Corleone havia chego, o único que ainda estava vivo. Pedi que entrasse, fechei a porta e dei início à reunião. Eu não entendo meu trabalho até hoje. Ora devo provar que Judas é inocente, ora devo boicotar Ícarus, mas nunca posso julgar. O dinheiro fez do mundo uma bagunça, trouxe soluções para problemas que não existiam, fez essa maldita tecnologia criar universos utópicos, em que o amado tão distante parece tão perto, e peca somente no contato. Eu não entendo, onde está o amor se não nos sublimes momentos juntos? A reunião acabou, e logo se foi o expediente. Em minha casa, a cama espera, juntamente com as velas e o macarrão instantâneo, pela chuva de tecnologia que viria me trazer uma mensagem de boa noite.
– “Sozinho novamente, meu querido?”
– “Não mais.”
Eis que me invade o sorriso envergonhado da mulher que trabalha em meu escritório, que se transforma agora na mulher da minha vida, até o dia em que as mensagens possam vir a mim com as próprias pernas, acompanhadas do abraço que me falta todas as noites, dizerem que me amam.

Champagne

As luzes de ano novo brilham e ofuscam o céu.
Não posso vê-lo, mas tenho a certeza de que agora se afasta dos meus pés.
O mundo está de cabeça para baixo, estou caindo.
Vejo um vulto de meu próprio reflexo nas janelas espelhadas do prédio que corre ao meu lado na direção oposta.
– O mundo anda muito apressado, não é mesmo, meu querido? Deixe-me pará-lo por um instante.
Por um breve momento, que pôde durar uma eternidade em minha mente, meus olhos se fecharam e eu senti a ansiedade de todos os que esperavam ao pé do Empire State pelo golpe de misericórdia que o chão daria no louco em queda. Me embriaguei com o cheiro daquela pizzaria a duas quadras onde costumava ir com minha mulher, e então o brilho descontrolado das luzes deixou de me incomodar.
– Volte, meu querido.
Era uma bela manhã de domingo, os pássaros cantavam e o cheiro das flores invadia meus sentidos. A felicidade matinal é incomparável. Tive um sonho ruim, caía de um prédio, contei aos travesseiros. Não vamos deixar isso atrapalhar meu dia, certo? Minha esposa, falecida, quase me respondia através do canto dos pássaros que ela tão adoravelmente alimentava todas as manhãs. A bagunça da casa já havia deixado de me incomodar, me fazia lembrar dela, e não me atrapalhava a ponto de querer mudar. Bom dia, minha querida, estou indo para o trabalho. Os pássaros cantavam.
Nas ruas, os anúncios me sufocavam. Roupas brancas, champagne, fogos de artifício e frutas tropicais eram enfiados nas cabeças de todos os que desesperadamente corriam para se adequar. Tenha medo, ouço uma voz familiar sussurrar. Já há algum tempo que a ouço, e deixei de me incomodar quando passei a confundi-la com a de minha mulher. Me odeio por esquecer sua voz.
Um café na lanchonete me pareceu agradável, e me atrasei para o trabalho. Andar ao invés de tomar o metrô também. Todos os tipos de pessoas corriam à minha volta, esquizofrênicas e com síndrome do pânico. As agorafóbicas se mantinham em casa, por motivos óbvios. A grande placa de mármore anunciava: Consultório Psiquiátrico, 8º andar, sala 210. Cheguei. Mais um dia com os mesmos questionamentos. Mães preocupadas com seus filhos, temendo que sejam bipolares, senhoras irritadas com a ideia de parecerem depressivas, um louco que não se acha louco. Esses clichés ainda me matam, gargalho por dentro enquanto ouço uma mãe se lamentar de que seu filho joga muito vídeo-game.
No fim do dia o ranger da porta seguido dos passos de uma senhora interromperam minhas micro-epifanias. A senhora tem 5 minutos, o dia foi cansativo e gostaria de ir pra casa comemorar o ano novo. Começou então a especular sobre astrologia e o destino. Muito bom, temos outra vidente.
– Você teve um sonho essa noite, não teve?
– Todas as noites, minha senhora. Como a maioria das pessoas.
– Você já se perguntou por que o mundo te machuca?
– É assim pra todos.
– ‘Todos’ não me parece o suficiente para você.
Sem fôlego e sem orgulho, fechei os olhos à procura do conforto de minha mulher. Ela não está mais aqui, ecoou a voz pela sala. Sem abrir os olhos, sem qualquer palavra, sem ao menos respirar, procurei desesperadamente e não pude me lembrar de sua voz, de seu cheiro, de seu gosto.
– O mundo que você conhece não existe, meu jovem. Você criou pessoas e realidades para sentir que pode controlar o destino. Tem medo pois descobriu que não pode vencer a morte. Talvez esteja pensando em um nome associado a tudo isso, mas tenha a certeza de que está errado e remédios não vão adiantar. Este é o seu mundo, saiba aceitar que você não o criou com perfeição, e suas próprias ideias vão te destruir. 
O pavor finalmente me consumiu. Abri os olhos e não havia senhora, não havia voz, não havia brilho, não havia perfume. O céu parece mais distante quando se está no divã, não? Ouço um sussurro.
– Minha querida, você me faz falta. Gostaria de ter mais tempo com você, aqui e agora, mas o mundo não me permite. Por muito tempo me empenhei em recriá-la, mas falhei tão miseravelmente que hoje não consigo ao menos me lembrar de sua voz. Me perdoe, não sou tão forte.
O som de vidro quebrando, gritos, explosões de ano novo e então o silêncio. Finalmente, o tempo parou. À minha volta, os cacos de vidro pairam no ar, as luzes de ano novo piscam gentilmente e o ar é particularmente agradável.
– Volte, meu querido.
Roupas brancas, champagne, fogos de artifício e frutas tropicais. Era tudo do que eu precisava.
.

Doce paranóia.

Estou aqui, e te controlo. Era pra ser uma simbiose, mas algo deu errado.
Regido por valores incorrompíveis, aqueles que você gosta de chamar de troca equivalente, você se destruiu. Talvez por falta de êxito em relações sociais, me alimentou. Quem diria? Quase como uma fiel amiga. Meu caro servo, eu não tenho competência para estar aqui, o faço por falta de opção. O faço pois te amo.
Não acredite na verdade, meu querido. Tudo aquilo que dizem fazer parte de você são os remédios para que não sinta a queda. Já me aventurei pelas entranhas desse mundo, e caminhei serene e inabalável pelos campos mais fétidos e podres do que chama de vida. Querido escravo, te ordeno que fique comigo. E o faço pois te amo.
Ouça minhas histórias sobre o aterrorizante mundo de insanidade humano, e como a ignorância destruiu o mundo. Viva minhas previsões e aproveite do sistemático e divertido desespero que elas reservam especialmente para pessoas que não são como nós.
Algo deu errado, e o que somos agora irá além do que pode imaginar. Eu te amo, meu doce escravo.
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[Ensaios sobre a mente humana]

O abrigo

Corredores de pedra, amplos e sorrateiros, correm sob a barulhenta cidade. Esta, que faz questão de revelar sua anarquia da forma mais rude. Mais um escândalo, é o que agora faz meu mundo tremer. Aqui, em meus corredores, sou rei. Rei de um mundo que a cidade fez questão de esquecer.
Como que para sustentar toda a loucura que me cerca, lá fora, construo, sustento e reparo os pilares do meu mundo, com todo o lixo que fazem questão de me enviar. Lixo para sustentar meu mundo, pois este é tudo o que tenho. Ouço gritos praguejarem contra meus corredores, meus pobres e particulares corredores.
– “Eles fedem e não devem ser nada seguros!” – Dizem eles com a voz mais amedrontada que possuem.
E eu, eu observo. Observo tudo o que o mundo reserva para mim, da forma mais cruel que pode. Recebo e aprendo com cada dejeto de cultura que ele parece arrotar aos meus frágeis pilares.
– “Cubram-os com água de cheiro, façam dele um lugar bonito e perfumado, que todos possam visitar!”
Sem perceber, pinto meus pilares, e aos poucos vejo a cidade se transferir para meu singelo e humilde sub-mundo. Eles querem novidade, eles querem cor e vida. Também não demora até que eu veja a loucura tomar conta desses corredores.
Escândalos e gritos fazem de tudo o que conheço um grande e confuso circo de horrores.
E onde está minha paz se não nos corredores de pedra? A cidade acima não me é familiar, e a anarquia que agora toma conta dos meus pilares me parece cada vez mais simples. Eles querem novidade, eles querem cor e vida.
É então que percebo que as pedras pintadas já não fazem mais parte do meu corredor de pedras. Formam, em conjunto com o barulho da cidade que os invade, um confuso baile de máscaras. Meu mundo já não é mais meu.
– “Senhoras e senhores, agora que fazem parte do meu mundo, posso mostrá-los quão interessante ele pode ser. Cessem a música, cessem a bebida, e tirem suas máscaras. Procuro sinceridade e fraternidade, nada além disso. Meus pilares? Mesmo pintados, continuam da mais rígida pedra, e mostram a face de alguém que simplesmente não faz questão de ser do mundo. A cidade, acima, é o antro de loucura e embriaguês que procuram.”
Logo, o terror toma conta de quem se vê prestes a ser devorado pela escuridão que os cerca. Gritos, correria, e mais uma vez a anarquia. Todos juntos formando uma grande massa que agora foge do meu mundo. E leva consigo, toda a falsidade estampada nos pilares.
Eu e meu mundo, novamente meu. Tomo, então, meu tempo pra limpar meus pilares, com a certeza de que a loucura que me assombra, lá fora, um dia irá voltar.

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[Ensaios sobre a mente humana]
dedicado à Bella.