Velocidade Constante
Há algo de bonito em destruir.
Vivemos e corremos sobre toda a podridão do mundo, e não sabemos o porquê. Somos um abismo, e nele temos medo de cair. Vejo tanta gente correndo, gente de potencial. Há tantos litros de cérebro, tantos quilos de carne, ossos e órgãos aqui. Vejo tanta merda que sinto vontade de destruir. Quem sabe assim eu possa recriar, reviver, retomar, resistir, refletir, repetir, relatar, re… redestruir?
Acorde, querido.
Há algo no ar me sufocando. Os sons e as sombras da noite têm me incomodado há algum tempo. Não durmo bem, e isso me destrói. Sinto meu corpo apodrecer. Onde está a maldita saúde que a propaganda me vende todas as manhãs?
Acorde, querido.
Luzes, luzes. Oh, as luzes. Sinto dores, não me mexo. Aquela vadia me traiu! Luzes. Um beep. Que vadia? Números e mais números. Oh, luzes! Outro beep. Luzes… O sol? Beep… O alarme? Hora de acordar!
Bom dia, querido.
Há algo de bonito em criar. Mesmo estando o quarto afogado em poeira, as roupas jogadas pelo chão, restos de comida espalhados e o sol se espremendo por entre as frestas da janela, há algo de bonito em criar um café da manhã. Junto uma fatia de pão, algum queijo e o leite vencido, e tenho um pedaço de vida em minhas mãos.
Sim, vida! O pão não se meche, o queijo não se reproduz e o leite não respira – não deveria, aliás -, mas todos se unem à minha massa para mantê-la viva.
Aliás, alguma vez já perdeu a habilidade de enxergar mentes? O mundo perde o sentido: pessoas não passam de máquinas que andam, comem e se desesperam; o céu se desprende, rasgando como papel de fundo; o ar queima por entre suas vias nasais; suas mãos parecem pertencer a algum outro que você nunca conhecerá; você entende o que é a massa humana.
Vejam todos, vejam todos! Há um covarde na sala de estar, sentado em almofadas de algodão bebendo leite e assistindo a obras-primas de alienação. Há um covarde em suas vidas, agora que lêem este escrito. Nunca esquecerão do covarde. Nunca esquecerão de quem são.
Troco a camiseta, calço os sapatos. Sem banhos hoje, a roupa continuada da noite passada me acompanhará por mais uma viagem a esse submundo doentio que chamam de sociedade moderna. Há muito blá-blá-blá pra lá e rrrrrr pra cá e beep pra lá e vrum-vrum pra cá… Há muito barulho lá fora. E todas essas pessoas correndo, para onde correm? Do que correm? Vejam só essas ovelhas, não sabem do que sua vida lhes adianta. Nunca conhecerão a verdade.
Andando pelas ruas nesta quarta-feira de manhã, com o sol entrecortando nuvens e aquecendo moléculas de vapor à minha volta, pessoas correm, carros correm, letreiros e ondas eletromagnéticas correm. Tudo corre. E eu ando. Só haverá gente cega neste mundo?
O compasso de meus pés não falha sequer por um segundo. Desviando desses seres abomináveis eu ando por entre um mar de massa humana, litros e litros de cérebro parecem escorrer ao meu redor. Eles são inúteis, repito. Nada além de uma massa cinzenta chacoalhando dentro de suas cabeças. Um passo, outro passo, mais um passo, uma bicicleta passa. Outro passo, e sem falha um último, antes que meu pé se enrosque em algo.
Engraçado perceber que apesar de toda a repulsa à massa humana, me torno fácil e ridiculamente humano ao tropeçar. Não há na história sequer um rei que manteve a unidade de suas tropas após uma falha. Não há de ser diferente com os artistas, reis de seu próprio mundo. Uma falha e precisamos encontrar outra forma de ver o mundo. Uma falha e tudo o que acreditamos se torna lixo.
Enquanto caio, mudo. Olho para os lados, percebo o rosto risonho da criança junto à mãe – maldita criaturinha sádica -, as pessoas que passam, a figura sentada na calçada. Espere. Uma figura sentada na calçada? Tarde demais, caí. E mudei.
Alguém sentado ao meu lado me dizia, sem palavras ou gestos, que também mudara. Apontava com os olhos para um buraco logo atrás, e seu cotovelo ralado me dizia que estava ali há não mais que cinco minutos. Um buraco, e nós mudamos. Vejamos quantos mais deverão cair para mudar. Por mais duas horas ninguém caiu. Todos com suas velocidades e caras fechadas eram especialmente treinados para evitar qualquer buraco. Ninguém quer mudar.
Passam as ovelhas, e nada muda. E mesmo caindo em buracos ou me consumindo em sonhos de guerra, não entendo o porquê da velocidade. Talvez o homem queira ser cada vez mais rápido para, quem sabe um dia, superar o mundo e se esconder em sua ciência e fé ao entender tudo o que pode acontecer em uma fração de segundos.
Segundos. São necessários apenas cento e quarenta e dois destes para se fazer um filho; vinte e um para se começar uma guerra; três para se matar alguém; meio para incendiar uma cidade inteira com Napalm. O homem quer ser mais rápido. Ele quer fugir.
“Antes que me falhe a vontade, o que faz aqui?” – disse o rapaz, há horas mudo.
“Acredito em mudanças. Minhas mudanças.”
“E que diferença elas fazem para o mundo?”
“Mundo, mundo, mundo. Nunca se teve tanto medo de um palco.”
“Palco?”
“Sim. Somos atores perambulando por um palco mundial, sob papéis de pessoas que não conhecemos e talvez nunca conheceremos.”
“Palco. Definição interessante.”
Uma ambulância passa correndo. Uma mulher grita com o marido. Outra bicicleta passa. Mais uma criança chora. Nada mudou, nada mudará. Todos continuarão com seus papéis até o dia em que a morte lhes vier contar quem realmente são, conduzi-los a si próprios.
Há, realmente, algo de bonito em destruir: mudar.
![[Digital Painting] Giant Flying Earthworm FROM HELL [Digital Painting] Giant Flying Earthworm FROM HELL](http://farm6.staticflickr.com/5128/5311228335_ee0276080e_t.jpg)



