Atestado de Óbito

Oh, doce manhã. Que os pássaros me venham preencher a aurora com a mais bela de suas canções, e que o vento traga a chuva para lavar minha alma. Querida manhã, tão fria e solitária, faz-se doce por sua própria melancolia, agora que abriga as almas sombrias daqueles que se familiarizam com teu estupor e nostalgia. A leve brisa se aproxima suavemente, e em movimentos de bailarina vem trazer um delicioso cheiro de amêndoas estranhamente confortável. Um banco de mármore dentro do corredor de árvores, não demora até que eu perceba a falta de qualquer outra alma viva pra compartilhar desse momento em que bela dama vem acariciar-me, acompanhada da morte.

Meus cabelos balançam aos gritos desesperados de corpos se retorcendo a dezenas de metros de distância, e por algum tempo as amêndoas são o suficiente pra me manter aqui em meu estado de devaneio, em que a razão parece faltar particularmente aos meus dedos, que pairam no ar e reproduzem as mais belas composições de meu mundo. Elas não têm nome, são apenas a representação mais perfeita do homem, que me invade como uma enxurrada, em milhares de compositores agora formando uma sinfonia que só eu terei o prazer de um dia ouvir, a sinfonia de todos os sons. A música, o balançar das árvores, o sol escondido por detrás das nuvens de chuva que se aproximam, todos conspiram pra que esse momento dure o quanto minha respiração agüentar.

Ao som da sinfonia de todos os sons, agora passando a seu último movimento tão esperado por todos em meu mundo, revejo os postulados sobre loucura e terapia, tão vazios, apenas uma tentativa de adiantar o inevitável devaneio final. Posso ouvir claramente os violinos, violoncelos, o coral, as flautas e todo o resto me carregarem para uma viagem caótica ao interior de minha própria existência. Eis que me sinto cair, infinitamente, enquanto fogem-me as lembranças e razões por entre os dedos, esvaindo-me na escuridão.

O estupor me controla, e sinto o sublime desfecho da sinfonia ser cravado em minha alma, que se mistura à dama dos ventos na leve dança rumo ao além, para nunca mais ser admirada por nenhum outro homem no mundo dos vivos. As amêndoas poderão trazer-me outras almas, mas nunca poderão levar-me de volta para contar ao mundo a verdade sobre o devaneio final. Dessa forma a sinfonia de todos os sons é tomada dos homens, para nunca mais ser ouvida por ninguém além de mim. Causa mortis: amêndoas.

apenas um comentário

  1. Thunay on

    Curti pra caramba o texto, mas no fim não consegui segurar o riso.
    Já leu memórias póstumas de brás cubas?
    Ele tbm retrata um delírio…

    Ah, a morte, porque ela é a divade todos os escritores?


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