Onda

<comece a ler ao 1:20. não precisa ter pressa.>

Enfim, deitado, ouço a voz de uma enxurrada de ondas eletromagnéticas que me desejam bons sonhos através do celular. E onde está você, se não aqui? As almofadas são a minha dama desta noite, e jogado entre elas, adormeço. Logo, posso sentir o calor que me falta em um leve abraço, sinto seus lábios se aproximarem de meu ouvido e falarem com a voz mais doce que já ouvi:
- “Sozinho novamente, meu querido?”
- “Não mais.”
Mais um dia na loucuralândia. O sol mal dá as caras e já posso ouvir a loucura desenfreada dos homens se projetar nas buzinas lá fora, e não demora até que os telefones tocando e o terno me sufoquem. Escritório de Advocacia, Bom Dia, quem fala? E mais um homicídio vem atormentar meu caos perfeitamente estável. Como um tiro, uma mensagem chega ao meu celular e ao som de Stravinsky, respondo palavras carinhosas de bom dia.
Senhor, você tem uma entrevista com os representantes do caso Corleone hoje às quatorze horas. Não me incomoda mais, anos trabalhando com gente inocente me fizeram esquecer de terror que é uma chacina familiar no domingo de páscoa. Obrigado, pode me trazer um café? O sorriso singelo responde e a porta se fecha. Na minha mesa, uma grande tela com uma foto dela, recebida por e-mail. O dia hoje está bem cheio, você poderia pedir comida? O de sempre, para dois. O mesmo sorriso, com pinceladas da mais pura e delicada vergonha, se prontifica a atender o meu pedido imediatamente.
- “Eu não entendo, vocês se amam tanto, por que nunca se encontraram?”
- “Não te convidei para almoçar para falar sobre minha vida, mas eu gostei de você, então serei cavalheiro em te contar. Eu a conheci há alguns meses por acaso na internet, e ela preza por mim me mandando mensagens e sentindo saudades. Não sei se algum dia vou encontrá-la, mas gosto do que ela sente, portanto não a ignoro.”
- “E o senhor se relaciona com outras mulheres?”
Convite ou não, o interfone tocou. Corleone havia chego, o único que ainda estava vivo. Pedi que entrasse, fechei a porta e dei início à reunião. Eu não entendo meu trabalho até hoje. Ora devo provar que Judas é inocente, ora devo boicotar Ícarus, mas nunca posso julgar. O dinheiro fez do mundo uma bagunça, trouxe soluções para problemas que não existiam, fez essa maldita tecnologia criar universos utópicos, em que o amado tão distante parece tão perto, e peca somente no contato. Eu não entendo, onde está o amor se não nos sublimes momentos juntos? A reunião acabou, e logo se foi o expediente. Em minha casa, a cama espera, juntamente com as velas e o macarrão instantâneo, pela chuva de tecnologia que viria me trazer uma mensagem de boa noite.
- “Sozinho novamente, meu querido?”
- “Não mais.”
Eis que me invade o sorriso envergonhado da mulher que trabalha em meu escritório, que se transforma agora na mulher da minha vida, até o dia em que as mensagens possam vir a mim com as próprias pernas, acompanhadas do abraço que me falta todas as noites, dizerem que me amam.

Ainda sem comentários

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.